Em resumo
- Ajuste fiscal necessário estimado em 3% a 4% do PIB
- Ibovespa acionou circuit breaker e caiu mais de 17% no pior momento
- Cada ponto na Selic adiciona R$ 50 bi a R$ 60 bi à dívida, segundo Braga
O quarto governo de Lula (PT) precisará de um ajuste fiscal de 3% a 4% do PIB para estabilizar as contas públicas em 2027, na avaliação do economista Carlos Braga. O professor da Fundação Dom Cabral e ex-diretor do Banco Mundial disse ao Times Brasil que sem corte de até 4% do PIB o país terá "problemas sérios".
A conta importa para quem tem ação, título ou dinheiro aplicado porque o desequilíbrio fiscal define o rumo da Selic e, com ela, o retorno de toda a renda fixa. Braga afirma que juros altos hoje alimentam a própria dívida: cada ponto na Selic custa R$ 50 bilhões a R$ 60 bilhões por ano ao carregamento do passivo. É o que ele chama de dominância fiscal, quando a política monetária perde força para segurar a inflação.
Ibovespa aciona circuit breaker e recua mais de 17%
O Ibovespa (^BVSP) acionou o circuit breaker nesta segunda-feira (26) e chegou a cair mais de 17% no pior momento do dia. Braga atribui parte do movimento à reversão das apostas do primeiro turno, quando o mercado passou a precificar vitória de Flávio Bolsonaro. Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do adversário, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.
O economista afirmou que o ajuste seria necessário de qualquer forma, independentemente de quem vencesse a eleição. Adiar o processo, diz, só encarece a conta.
Arcabouço virou 'peça de ficção', diz Braga
Para ele, a regra fiscal perdeu força à medida que gastos ficaram fora dos limites originais. "O arcabouço fiscal virou uma peça de ficção", afirmou. Estabilizar a dívida exigiria mexer em despesas estruturais, como uma nova reforma da Previdência, as regras de reajuste do salário mínimo e os gastos obrigatórios de saúde e educação.
Braga também criticou a ideia de resolver o problema apenas pelo lado da receita. Nas condições atuais, não vê perspectiva de recuperação rápida do grau de investimento do Brasil.
Galípolo e Alckmin seriam bem recebidos pelo mercado
O economista citou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o vice-presidente Geraldo Alckmin como nomes que reduziriam a desconfiança inicial do mercado em uma equipe econômica. "Galípolo, pelo trabalho que ele vem fazendo no Banco Central, seria um nome bem recebido pelo mercado", disse.
Ele ponderou que nomes de credibilidade ajudam, mas não substituem medidas: "visão sem implementação é alucinação". Na política externa, defendeu manter equilíbrio entre China e Estados Unidos, sem alinhamento automático a nenhuma das duas potências.
O governo Lula foi eleito neste domingo (25), e as primeiras sinalizações fiscais do novo mandato devem sair antes da posse, em 1º de janeiro.
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